Vem ao meu coração, alma cruel e irada,
Tigre adorado, monstro de ares indolentes;
Quero afundar meus dedos trementes
Na tua espessa crina tão pesada.
Nas tuas saias perfumadas, junto
Ao teu colo, enterrar fronte saudosa,
E respirar, como ressequida rosa,
Suave bolor do meu amor defunto.
Quero dormir! dormir o tempo que me sobre!
Num sono doce como a morte eu posso
Estender os meus beijos sem remorso
Nesta carte tão polida como o cobre.
Para engolir os meus mudos arquejos
Nada me vale o abismo de teu leito;
Tens nos lábios o olvido mais perfeito
E o Letes vai fluindo nos teus beijos.
Ao meu destino que é doçura e vício,
Obedecerei como um predestinado;
Mártir sem culpa, dócil condenado,
Cujo fervor, porém, atiça o suplício.
Depois para afogar minha aflição
Cicuta eu sugarei como nepentes
Nos bicos de teus seios tão trementes
Onde jamais bateu um coração.
Charles Baudelaire.
domingo, 6 de abril de 2008
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