Vem ao meu coração, alma cruel e irada,
Tigre adorado, monstro de ares indolentes;
Quero afundar meus dedos trementes
Na tua espessa crina tão pesada.
Nas tuas saias perfumadas, junto
Ao teu colo, enterrar fronte saudosa,
E respirar, como ressequida rosa,
Suave bolor do meu amor defunto.
Quero dormir! dormir o tempo que me sobre!
Num sono doce como a morte eu posso
Estender os meus beijos sem remorso
Nesta carte tão polida como o cobre.
Para engolir os meus mudos arquejos
Nada me vale o abismo de teu leito;
Tens nos lábios o olvido mais perfeito
E o Letes vai fluindo nos teus beijos.
Ao meu destino que é doçura e vício,
Obedecerei como um predestinado;
Mártir sem culpa, dócil condenado,
Cujo fervor, porém, atiça o suplício.
Depois para afogar minha aflição
Cicuta eu sugarei como nepentes
Nos bicos de teus seios tão trementes
Onde jamais bateu um coração.
Charles Baudelaire.
domingo, 6 de abril de 2008
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Intimsphäre
Lembro-me agora de quando nos conhecemos, e é incrível como, mesmo agora, sou fascinada pelas mesmas coisas que me fascinaram no primeiro encontro. O jeito de falar, que me acalmaria mesmo se eu estivesse no meio de uma tempestade, que esbanja convicção e gentileza ao mesmo tempo... A voz mais doce que já ouvi, como eu nunca havia encontrado antes.
Inteligência e sutileza, irreverência e aquele profundos olhos, que sempre decifram os meus, num só segundo, entorpecendo-me e fazendo-me sentir nua, como se todos os meus segredos tivessem sido descobertos, e enchendo-me de dúvidas, as mesmas de sempre.
O abraço que conforta e aquece, feito sob medida. Braços que envolvem como se isso pudesse me proteger do mundo... E talvez possam.
Afastam-me das angústias rotineiras com um suspiro, desfazendo o peso do meu próprio mundo em minhas costas.
A voz sonolenta que me faz esquecer as horas que passam. Horas intermináveis em que brincava com meu cabelo ou acariciava meu rosto e envolvia-me nas músicas que hoje trazem as lembranças. Ouço a sua risada descontraída, de quando achava graça em minhas ironias sem fim.
Os cabelos perfumados, embaraçados nos meus, o contraste entre o claro e o escuro; quatro olhos azuis que se entendiam tão bem, mesmo nos momentos mais críticos...
Meu oposto e minha semelhança reproduzidos em uma só pessoa, sempre sorrindo e dizendo-me o que eu queria ouvir só com uma troca de olhares, fazendo-me pensar que eu poderia ser importante para alguém, mesmo não acreditando.
Inteligência e sutileza, irreverência e aquele profundos olhos, que sempre decifram os meus, num só segundo, entorpecendo-me e fazendo-me sentir nua, como se todos os meus segredos tivessem sido descobertos, e enchendo-me de dúvidas, as mesmas de sempre.
O abraço que conforta e aquece, feito sob medida. Braços que envolvem como se isso pudesse me proteger do mundo... E talvez possam.
Afastam-me das angústias rotineiras com um suspiro, desfazendo o peso do meu próprio mundo em minhas costas.
A voz sonolenta que me faz esquecer as horas que passam. Horas intermináveis em que brincava com meu cabelo ou acariciava meu rosto e envolvia-me nas músicas que hoje trazem as lembranças. Ouço a sua risada descontraída, de quando achava graça em minhas ironias sem fim.
Os cabelos perfumados, embaraçados nos meus, o contraste entre o claro e o escuro; quatro olhos azuis que se entendiam tão bem, mesmo nos momentos mais críticos...
Meu oposto e minha semelhança reproduzidos em uma só pessoa, sempre sorrindo e dizendo-me o que eu queria ouvir só com uma troca de olhares, fazendo-me pensar que eu poderia ser importante para alguém, mesmo não acreditando.
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